Sobre Ferberização, sono e rotinas infantis – parte 1

bom dia, pessoal!

hoje começo a escrever uma série de posts sobre a polêmica da ferberização, o ‘método Estivill’, o sono e a rotina do bebê, usando 4 livros emblemáticos com opiniões bastante diferentes: “Nana, Nenê” do Dr. Estivill, “Nana, nenê” do Gary Ezzo, “Segredos da Encantadora de Bebês” da Tracy Hogg, e “Soluções para noites sem choro” da Elizabeth Pantley. por ser um tema muito polêmico e extenso, vou dividir essa discussão em 3 partes: este primeiro sobre ferberização, o segundo sobre rotina e o último sobre a teoria do apego.

não quero discutir aqui se é ‘certo’ ou ‘errado’ deixar bebês chorando sozinhos em seus quartos, primeiro porque esta é uma discussão já vista e revista tantas vezes que a conclusão mais adequada é “cada pai/mãe deve agir de acordo com o que lhes parece mais acertado e mais conveniente para suas rotinas familiares”; segundo porque acho que existem discussões adjacentes muito mais importantes e que devem ser levadas em conta antes de os pais optarem pela ferberização ou não.

o post de hoje é sobre o mais controverso dos livros: “Nana, nenê” do Eduard Estivill e da Sylvia de Bejar, que prega uma técnica conhecida como “método Estivill”. Eduard Estivill é um neuropediatra especializado em doenças do sono, que tem uma clínica em Barcelona e alguns livros publicados sobre o tema. ele se tornou famoso ao publicar esse livro, que resumidamente ensina os pais a ‘treinarem’ seus filhos para dormirem a noite toda. a polêmica principal consiste na ideia propagada por ele de que, se a criança chorar por não querer dormir sozinha, os pais devem ‘ensiná-la’ que seu choro não vai adiantar e devem deixá-la chorando em seu berço até pegar no sono sozinha.

alguns argumentos do Dr. Estivill ressoaram em mim por serem compatíveis com crenças que eu já tenho; um deles é que a ligação de amor e carinho entre bebês e seus pais não se baseia exclusivamente numa situação específica (por exemplo, deixar o bebê chorar na hora de dormir). ou seja, se você estiver querendo adotar o método dele mas está com medo de seu bebê ‘te odiar para sempre’, relaxe. sua relação estará segura contanto que você dê carinho, atenção e amor ao seu filho nas demais situações (hora de mamar, troca de fraldas etc.).

acredito que um dos maiores medos de mães de primeira viagem é que uma única situação em que elas perderam a paciência ou foram um pouco ausentes seja suficiente para marcar seu filho para sempre. conheci várias mães que se culparam por não ter conseguido parir naturalmente, por não ter conseguido amamentar exclusivamente até os seis meses ou até por terem dado um tapinha na mão do bebê num momento de impaciência. o que faz um pai ou mãe ser bom não é fazer tudo certo o tempo todo, mas acertar na maioria das vezes. portanto, se você quer muito que seu filho durma a noite toda e gostaria de tentar o método do “Nana, nenê” mas está com medo de estar sendo cruel com seu filho deixando-o chorar sozinho, fique calma. dê o máximo de atenção e carinho a ele em outros momentos e veja se consegue ter sucesso no ‘treinamento’ da hora de dormir.

outro ponto em que concordo com o Dr. Estivill é quanto a quantidade infinita de ideias estapafúrdias que pais e mães já inventaram pra fazer seus filhos dormirem e das quais se tornaram reféns mais tarde. conheci um pai que enfiava os três filhos pequenos dentro do carro toda noite para fazê-los dormir dando voltas no quarteirão… “meus filhos só dormiam assim”, ele me disse um dia. caramba, que ‘programação genética’ estranha! rs eu mesma não soube ensinar a Elis, minha primogênita, a dormir sozinha e acabei me tornando refém de sempre acudi-la quando acordava, dando colo, distraindo, dando leite…

porém, apesar de concordar com o autor em alguns pontos, discordo da metodologia defendida por ele, das premissas que ele usa para sustentá-las e principalmente do modo pelo qual ele se refere às crianças em alguns pontos do livro. ele chega a chamar os bebês (sim, seu filho!) de “pestinhas” por tentarem chamar os pais à noite chorando e, às vezes, se esgoelando. muito pouco profissional da parte dele, pro meu gosto.

a premissa principal do doutor é a de que crianças precisam ser ‘treinadas’. acho isso um tanto quanto militar demais. crianças, na minha opinião, não precisam ser ‘treinadas’ e nem precisam aprender a suportar agruras como ficar sozinhas e tentar se virar por conta própria. a vida se encarrega de cuidar disso. eu acredito que bebês e crianças precisam de segurança, de apoio e principalmente de carinho, especialmente nos momentos mais difíceis de suas vidas, como quando estão aprendendo alguma coisa nova (e provavelmente complexa). imagine que, quando você resolveu tirar as rodinhas da sua bicicleta, seu pai tivesse te dito “se vira, filho”, ao invés de “vem cá que eu te ajudo”… e, no entanto, você aprendeu. não?

é claro que acredito que as crianças devem aprender a fazer as coisas sozinhas, como tentar ficar em pé ou se levantar depois de cair, mas os pais não precisam estar por perto para ampará-los e dar confiança? não é assim que ensinamos a usar a privada ou a tomar banho sozinhos? primeiro fazemos por eles, depois deixamos que façam sozinhos mas sob nossa supervisão e, só depois de o aprendizado estar completamente internalizado, realmente podemos sair de perto sem que a criança sinta falta. pois então, eu pessoalmente acredito que devia ser assim ao ensinar seu filho a dormir sozinho. não deveríamos simplesmente largá-lo no berço e dizer “agora, meu filho, você tem que aprender a dormir sozinho porque um médico muito conceituado disse que isso te fará bem. beijo e tchau.”

outro problema com a proposta do Dr. Estivill é uma excessiva racionalização do método: ele chega a apresentar uma tabela de minutos para os pais seguirem quanto ao intervalo em que se deve deixar a criança chorar sozinha até acudi-la. no primeiro dia deve-se deixar a criança chorar por 3 minutos até os pais serem permitidos a entrar no quarto e, sem encostar no bebê, explicar a ele que está tudo bem e, de novo, “beijo e tchau”. o próximo intervalo é de 7 minutos até a próxima intervenção, depois de 11, 13, e assim por diante. espera: desde quando ensinar qualquer coisa a uma criança é uma ciência tão exata assim? já pensou, você na maternidade e a enfermeira te ensina que, ao dar banho no seu filho, a água tem que estar a exatamente 36,5 graus, você deve colocar uma gota e 3/4 de shampoo na cabeça dele, dar 3 voltas para a esquerda e enxaguá-lo duas vezes antes de tirá-lo da banheira. isso em, no máximo, 5 minutos e 36 segundos. hahahahahaha!

bom, é um livro bem curto, que dá pra ser lido em duas horas. acho que vale à pena lê-lo, seja você um adepto do método, seja uma mãe de primeira viagem, seja avó. sempre considero importante embasarmos nossas opiniões conhecendo um tema mais a fundo, mesmo que não concordemos com a proposta geral.

para ser sincera, demorei quase 4 anos para realmente conhecer o famigerado “Nana, Nenê”, de que tanto já ouvira falar em grupos de mães pela internet. hoje percebo que, apesar de não concordar com a rigidez do argumento do neuropediatra, concordo com algumas das suas premissas e acho válido levar algumas coisas em consideração, mesmo que você não queira seguir o método completo. por exemplo, criar rotinas absurdas de sono, como dar um passeio de carrinho no meio da madrugada para fazer o bebê dormir de novo, é simplesmente tapar o sol com a peneira. os pais acabam por se tornar, sim, reféns desses métodos que eles mesmos criaram, e podem terminar por culpar suas próprias noites mal dormidas na criança, que simplesmente aprendeu assim.

e você, quais foram suas experiências de sono com seus bebês? já leu este livro? conte pra gente!

beijos!

Nana, Nenê

Nana, Nenê

  Nana, Nenê

  Eduard Estivill e Sylvia de Bejar

  WMF Martins Fontes

  2009

  160 páginas

  r$ 39,90 (na Cultura)

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Categorias: livros, livros sobre puericultura | Tags: , , , , , , , | 7 Comentários

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7 opiniões sobre “Sobre Ferberização, sono e rotinas infantis – parte 1

  1. Izabela

    Adorei o texto Má! Mesmo nao sendo mae ainda, queria saber sobre esse método. Depois que li seu texto, com certeza vou ler o Nana neném. Bjs!

    • que bom poder ajudar, Izabela!
      percebi que tem muita gente pronta a criticar ou defender sem mesmo ter lido o livro. é uma leitura tão rápida que vale a curiosidade! boa leitura e depois conta pra gente o que achou, ok? beijo!

  2. Samantha

    Ótimo texto ! Sem dúvida, o ditado que mais acredito é “nós mamães somos todas iguais, só muda o endereço” ! Outro fato, que creio piamente: não tem “técnica infalível”… cada criança é diferente, responde diferente… O Lucca desde pequeno dorme deitado… mas comigo ao lado dele.. até ele adormecer e ai o colocamos na cama…

    Bjs à todas, adorei o texto !

    • obrigada, Samantha!
      olha, te confesso que meu marido e eu acabamos por ‘ensinar’ nossos filhos a adormecer na nossa cama por uma questão de rotina: é um dos únicos momentos em que nós dois conseguimos conversar sobre o dia e ficar com nossos filhos ao mesmo tempo. como eles estão cansados a essa hora, acabam por dormir na nossa cama enquanto colocamos o papo em dia, e assim ficou. e nenhum de nós dois acha ruim, sabe? se encaixa tão perfeitamente na nossa rotina que faz sentido para nós. e eles adoram, claro!

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  5. Andréa

    Tenho 2 filhos, de 24 e 13 anos. O primeiro foi praticamente um personagem da introdução do livro do Dr. Estivil. O sofrimento dele para adormecer era imenso – o que nos fazia sofrer muito tb. Com o segundo usamos o método do Nana Neném e foi a melhor coisa que fizemos por ele. Ao contrário do que dizem, a proposta não é deixar o bebê chorar até dormir, mas conduzi-lo, com amor e carinho, a uma sensação de segurança e tranquilidade. O choro acontece, mas com a “gradação” dos minutos aos poucos o bebê aprende que é hora de descansar. Paz pra toda a família.

palpita aí!

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