Sobre a morte e outros temas infantis

Quando eu era pequena, sempre que meus pais compartilhavam comigo algum assunto ‘de gente grande’, eu me sentia muito importante. Não sei se era porque eu soubesse que a vida era mais do que Barbies e lição de casa, ou porque o mundo dos adultos sempre me parecesse cercado de mistérios, mas fazer parte desse mundo fazia eu me sentir respeitada.

Talvez por isso, sou solidária à ideia de dividir com meus filhos todo e qualquer assunto pelo qual eles tenham interesse. É claro que existem meios de ‘enfeitar’ uma história para que eles a compreendam, do contrário toda a iniciativa cai por terra.

Outro dia, vasculhando com uma amiga as tentadoras prateleiras infantis da Livraria Cultura à procura de ilustrações inspiradoras, conheci três livros para crianças que falavam sobre a morte e a perda, que me emocionaram muito. Um deles é nacional, Pedro e Lua, de Odilon Moraes, que em 2005 ganhou o prêmio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. Conta a história entre a amizade do menino Pedro e da tartaruga Lua através de uma poesia sutil e desenhos de traços simples.

“O livro apresenta o garoto Pedro, fascinado pela noite e seus mistérios. Ele é diretamente relacionado com pedra, por uma questão etimológica. Seu encanto foi descobrir num livro que a lua, que faz a noite iluminar-se, também era uma pedra. E, num raciocínio lógico, as pedras encontradas pelo menino não eram mais do que fragmentos do satélite, caídos na Terra. O menino suspeita que as pedras, caídas da lua, sentem saudades de casa e, todas as noites, as empilha a fim de deixá-las mais perto da casa original. Eis que encontra uma tartaruga, cujo casco assemelha-se a uma pedra. O novo animalzinho de estimação de Pedro ganhou um nome bem particular – Lua. Uma verdadeira amizade está para nascer, entre Pedro e Lua. Mas, quem são eles? A pedra designa o objeto e, ao mesmo tempo, Pedro; Lua é o satélite natural e a tartaruga. Todos esses elementos são únicos e inseparáveis. Quando um deles ‘sai de órbita’, toda a cadeia se desmancha. E é o que acontece quando Pedro vai viajar, de férias, para a cidade. Quando retorna de sua emocionante viagem, sua amiga Lua não vem ao seu encontro. Ela se escondeu no casco e o céu ficou triste, ‘Triste igual céu sem lua’. O menino sabia que era a saudade. Como será, agora, a vida de Pedro sem Lua? Os dois amigos algum dia se reencontrarão? (sinopse do site da Livraria Cultura)

Outro livro é A Árvore Generosa, de Shel Silverstein, com tradução de Fernando Sabino. Seguindo a mesma linha do livro anterior, este tem desenhos de traços bem simples e conta a história da amizade entre uma árvore e um menino até o fim de sua vida. Numa primeira leitura, o livro fala de ecologia; mas numa leitura mais profunda, trata sobre a relação de amizade entre dois seres e das trocas entre eles.

A árvore generosa traz o clássico de 1964 que conta a história do amor entre uma árvore e um menino. A árvore é a amiga amorosa que dá tudo ao menino, suas folhas, seus frutos, sua sombra. O menino também ama a árvore, a grande companheira de todos os dias; sobe em seu tronco, se pendura nos galhos, brinca de esconde-esconde. Até que vai crescendo, se torna adolescente, depois adulto. E, pouco a pouco, deixa a amiga de lado. ‘Estou grande demais para brincar’, diz o menino, que então precisa de dinheiro para comprar ‘muitas coisas’. A árvore fornece suas maçãs, para o jovem vender. Depois seus galhos, para o homem construir sua casa. E a história acompanha o passar do tempo até a velhice do homem – que até o fim, já bem velho e cansado, é chamado de menino pela árvore. Em primeiro plano, uma lição de consciência ecológica – o homem pequeno, mesquinho, frente à generosidade e a força da natureza. No entanto, a dinâmica que se vê entre o menino e a árvore mostra também a passagem do tempo e dos valores que são reavaliados com ela, numa relação de troca sincera e desinteressada – essa que o homem parece desaprender nas exigências da vida adulta.” (sinopse do site da Livraria Cultura)

O terceiro livro, mais denso e de compreensão talvez um pouco mais difícil, é O Pato, a Morte e a Tulipa, do alemão Wolf Erlbruch, vencedor do prêmio Hans Christian Andersen. Com ilustrações mais elaboradas e delicadas, o autor narra a visita da Morte ao Pato, e de como ela passa a ‘aproveitar a vida’ antes de levá-lo.

“Em O pato a morte e a tulipa o autor questiona ‘para onde vamos’ por meio de uma amizade incomum. Se dizem que a morte nunca atrasa, o autor nos mostra que, ao conhecer e se encantar com um pato, ela perde a noção do tempo e até desfruta um pouquinho da vida. O pato a ensina a mergulhar no lago, subir em árvores e tirar uma soneca. E onde a tulipa entra nesta história? A resposta cabe ao leitor.” (sinopse do site da Livraria Cultura)

Os três livros me encantaram principalmente por tratar de um assunto tão complexo e tão ‘contraindicado’ para crianças de um jeito extremamente delicado e poético, sem perder a qualidade infantil de entreter e ser didático ao mesmo tempo.

Da próxima vez que você estiver fuçando as misteriosas estantes de uma livraria infantil, dê uma olhada nessas indicações e emocione-se!

Pedro e Lua

Cosac Naify

2004

64 páginas

r$ 38 (Livraria Cultura)

 

A Árvore Generosa

Cosac Naify

2006

60 páginas

r$ 45 (Livraria Cultura)

 

O Pato, a Morte e a Tulipa

Cosac Naify

2009

32 páginas

r$ 39 (Livraria Cultura)

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Categorias: livros, livros infantis | Tags: , , , , , , , , | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Sobre a morte e outros temas infantis

  1. Muito bom o post!
    Na medida do entendimento, jamais mentir. Mesmo porque como sao inteligentes e perspicazes essas nossas criancinhas.

palpita aí!

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